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No ano do Galo, o Brasil não pode ter voo de Galinha

No ano do Galo, o Brasil não pode ter voo de Galinha

O ano novo Chinês começou dia 28 de janeiro e terminará em 15 de fevereiro de 2018. Segundo a lenda do Buda, que dá início ao horóscopo chinês, o galo está destinado a ser o guardião de 2017. O signo do galo caracteriza pessoas cheias de coragem, honestidade e ambição. Esse ano estará contagiado com a energia de dinâmica, mudança, novas ideias e oportunidades. Será um ano para quebrar barreiras e perder o medo.

 

No Brasil, após um ano de 2014 de estabilidade e uma forte retração da economia em 2015 e 2016, não podemos deixar de continuar construindo a base para a retomada de um crescimento sustentável e crível. Iniciamos o ano mais otimistas, acreditando que o pior na economia já passou e que daqui pra frente vamos retomar uma trajetória de crescimento.

 

Os desafios ainda são enormes devido à forte trajetória de alta de nossa dívida em relação ao PIB e à necessidade de implementar mais reformas para destravar o crescimento. Nós, do Modal Asset, acreditamos que podemos crescer esse ano 0,70% e já entrar em 2018 a um ritmo de crescimento de 2,5%.

 

Comentei em meu último artigo publicado nesse espaço, no dia 13 de dezembro, intitulado “Trump despertou o Espírito Animal americano. Quem despertará o nosso?” que, da mesma forma que o novo presidente dos EUA despertou o espírito animal reanimando o investimento nos EUA, aqui no Brasil precisávamos de algo que pudesse despertar o nosso espírito animal. O Banco Central, em sua primeira reunião de 2017, conseguiu injetar um novo ânimo na economia, iniciando um processo de redução do juro real. Surpreendendo a grande maioria dos analistas de mercado, a taxa de juro foi reduzida em 0,75 ponto, abrindo espaço para encerrar o ano a um dígito. A redução do juro não ajuda em si o crescimento, pois ainda estamos muito longe do juro neutro da economia, mas podemos dizer que vai deixar de atrapalhar a retomada. Em uma economia em que as empresas estão muito endividadas, os bancos púbicos estão diminuindo seu balanço, os subsídios estão sendo cortados e o fiscal começa a ser contracionista, precisávamos de uma boa notícia do lado monetário.

 

A discussão em relação ao juro neutro deve se intensificar. Com a aprovação do teto dos gastos por 20 anos e se aprovarmos a reforma da Previdência sem muitas modificações, o caminho para um juro neutro mais próximo a 3% do que 5% será bem factível. Assumindo uma meta de inflação de 4,5%, convergindo para 3,5% nos próximos anos a partir de 2019, podemos sonhar com um juro de equilíbrio entre 7% e 8% ao ano.

 

O governo anunciou que está estudando uma nova forma de financiamento para acabar com a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), o que vai ajudar na normalização do alto juro no país. Uma das razões para o alto juro no Brasil se deve à grande parcela de juro subsidiado na economia com créditos direcionados a grandes empresas em alguns setores. Essa anomalia pode ser vista através da taxa implícita da dívida pública que já chega a 16,4% no acumulado de 2016. Normalizando essas taxas subsidiadas a algo próximo à taxa Selic, a política monetária praticada pelo Banco Central será mais eficaz na economia, pois será necessário um movimento muito menor na taxa de juro para afetar a trajetória da inflação, e consequentemente, o custo para o produto será menor.

 

O risco para a retomada do crescimento continua sendo a incerteza política. Nos próximos dias, com a homologação da delação da Odebrecht, o ruído político deve aumentar. A volta do Congresso, a incerteza em relação à eleição de presidente da Câmara e o risco de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) votar a cassação da chapa Dilma-Temer ainda podem afetar a volta da confiança do empresário em investir. Incertezas quanto ao risco político em relação às eleições de 2018 também podem afetar a entrada de capital para grandes projetos no país.

 

No ano do galo, o líder chinês Xi Jinping se inspirou com um grande discurso em Davos em favor da globalização. Lançou-se candidato a ser o protagonista de uma nova liderança mundial que deve ocupar o espaço dos EUA. O discurso do presidente chinês recebeu aplausos da elite empresarial. Já nos EUA, o presidente recém-eleito, Donald Trump, continua com seu discurso de candidato, em que prega a antiglobalização, defendendo políticas pensando somente nos EUA.

 

O Brasil tem que se aproveitar desse novo equilíbrio mundial e tomar a liderança sendo protagonista em novos acordos comerciais e se lançar ao mundo como um país de grandes oportunidades de investimento. Além disso, as reformas já iniciadas devem ser aprofundadas, atingindo reformas trabalhistas e fiscais. Não podemos correr o risco de nossa retomada ser um voo de galinha, pois as eleições de 2018 estão logo ali.

 

*Luiz Eduardo Portella é sócio-gestor do Modal Asset Management

E-mail: lportella@modal.com.br