Copom, Inflação, Selic

Balanço de riscos permite aceleração no corte de juros

Balanço de riscos permite aceleração no corte de juros

Hoje o colegiado que compõe o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne em sua 206ª reunião para decidir em quanto reduz a Selic, que está em 12,25%.

A maioria dos analistas espera um corte de 1 ponto percentual na taxa, mas avaliamos que o balanço de riscos permite um corte mais agressivo. Em meu último artigo publicado neste espaço (“No ano do galo, o Brasil não pode ter voo de galinha”, de 31 de janeiro de 2017), manifestei a importância de iniciarmos uma trajetória de crescimento já em 2017 para garantirmos a retomada da economia em 2018 com a queda do desemprego para que não tenhamos sustos nas eleições presidenciais.

Os indicadores de atividade mostram uma retomada muito gradual e muito frágil. No primeiro semestre, o setor agropecuário será o grande responsável pela melhora dos indicadores de atividade junto com uma recomposição de estoques por parte da indústria, porém ainda muito focada em automóveis. Os indicadores sensíveis ao consumo ainda seguem piorando. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), que representa quase dois terços do PIB, iniciou o ano com uma forte queda, indicando que o consumidor ainda segue em processo de desalavancagem e sofrendo com a alta do desemprego.

O fraco crescimento tem obrigado o governo a anunciar novos contingenciamentos do orçamento para enfrentar a queda da arrecadação, pois o setor produtivo não suporta mais aumento de impostos. A Fazenda anunciou um contingenciamento de R$ 42 bilhões para 2017 e na última sexta revisou a meta de déficit para 2018 de R$ 7 9 bilhões para R$ 129 bilhões. A nova previsão de superávit nas contas públicas ficou para 2020 apenas.

O reflexo da fraca recuperação da economia pode ser visto na inflação. O IPCA do primeiro trimestre de 2017 foi o mais baixo desde o início do Plano Real, atingindo apenas 0,96% nesse início de ano. A previsão pela pesquisa Focus do Banco Central, que reúne os principais analistas do mercado, já aponta uma inflação em 2017 de 4,09%.

Nos anos seguintes, já podemos verificar uma queda nas expectativas para os próximos três anos, todas abaixo de 4,5%. O preço dos títulos indexados a inflação já negociam a taxas bem abaixo de 4,5% e para 2017 se encontram ligeiramente abaixo de 4%.

Na nota da reunião do Copom de fevereiro, os membros do comitê reafirmaram o entendimento de que o cenário atual, com expectativas de inflação ancoradas e o elevado grau de ociosidade na economia, prescreve antecipação do ciclo de distensão da política monetária. Também manifestaram preferência por manter um maior grau de liberdade quanto às decisões futuras a serem tomadas em função da evolução do cenário básico e alguns membros ponderaram que a estimativa de extensão do ciclo poderá ser revisada em função do grau de antecipação do ciclo, ou seja, existe um trade­off claro entre a velocidade de antecipação do ciclo agora e a Selic ao final do ciclo. Desde a última reunião, o cenário evoluiu muito favoravelmente. A inflação continua surpreendendo positivamente com os núcleos rodando entre 2% e 3%, bem abaixo da meta; a atividade seguiu desapontando, os analistas que estavam estimando um crescimento do PIB no primeiro trimestre entre 0,5% e 0,7 % e agora estão revendo para 0,4%; as expectativas de inflação seguem em queda, inclusive para 2018, 2019 e 2020; o cenário internacional segue muito benigno, o mundo está com uma perspectiva melhor de crescimento, o que está beneficiando os países emergentes, inclusive com uma forte tendência de valorização de suas moedas. O dólar só está acima de R$ 3 porque o BC está comprando mais de US$ 4 bilhões por mês, impedindo que a nossa moeda acompanhe a valorização das moedas dos demais países emergentes.

Adicionalmente, cabe ainda ressaltar que parte relevante da inflação de serviços (empregado doméstico e mão de obra) ainda não foi impactada pela fraqueza da economia. Em particular, esses itens estão praticamente inalterados desde maio de 2016 devido a uma questão metodológica envolvendo o fim da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) e o até então curto histórico da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.

No entanto, a PNAD Contínua vai completar um histórico de cinco anos em meados desse ano, tamanho que julgamos que permitirá ao IBGE atualizar a metodologia desses itens se seguir o mesmo roteiro da penúltima atualização do item empregado doméstico, ocorrida em 2007 . Se estivermos corretos, a esperada correção de metodologia contribuirá para redução adicional de 0,4% do IPCA em vista da fraqueza observada no mercado de trabalho e rendimentos, podendo levar a inflação de 2017 a 3,4%. Em resumo, o balanço de riscos é muito favorável à antecipação do ciclo de flexibilização monetária.

A economia está muito frágil e a inflação segue uma trajetória forte de queda. Em uma economia sem estímulo por parte do setor público, sem expansão do crédito e com as empresas e famílias ainda em processo de desalavancagem, a única forma de estímulo é trazer o juro rapidamente abaixo do neutro.

*Luiz Eduardo Portella é sócio-gestor do Modal Asset Management
E-mail: lportella@modal.com.br