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Investimentos

O desafio de recuperar investimentos de maneira sustentável e duradoura

O desafio de recuperar investimentos de maneira sustentável e duradoura

Para especialistas, retomada da confiança do empresariado dependerá de reformas e cenário político

E Agora Brasil? com Arminio Fraga e Antonio Correa de Lacerda. Mirian Leitão, Antonio Correa de Lacerda, Armínio Fraga e Merval Pereira. – Agência O Globo

RIO – Embora a economia brasileira tenha vencido a recessão, sua recuperação é frágil, em grande parte, por um cenário de paralisia dos investimentos. Os quase três anos de retração derrubaram o nível dos investimentos a um patamar 30% inferior ao período pré-crise e, hoje, eles correspondem a apenas 14% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, sem perspectiva de melhora. A avaliação é dos especialistas presentes no encontro “E agora, Brasil?”, sobre a retomada econômica, promovido pelo GLOBO com patrocínio da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e apoio do Banco Modal, na Maison de France, na última terça-feira.

O debate reuniu o ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio da Gávea Investimentos Arminio Fraga e o economista da PUC-SP Antonio Corrêa de Lacerda e foi mediado pelos colunistas Merval Pereira e Míriam Leitão, além de contar com a presença de outros colunistas e editores do GLOBO e de empresários. Na opinião dos especialistas, contornar o obstáculo dos investimentos de maneira duradoura e sustentável passa por uma reforma ampla do Estado brasileiro, que corrija a rota da dívida pública e proporcione um retorno definitivo ao crescimento.

– O investimento público está muito baixo em todos os níveis, inclusive estatais. Além do nível de ociosidade, há a dificuldade de financiamento. O crédito no Brasil, em geral, é muito caro, e isso sempre foi amenizado com a atuação dos bancos públicos. Mas eles, em função do próprio ajuste fiscal, se encontram em uma situação difícil para conduzir esse processo. Por isso, nossa saída ainda será muito lenta – afirmou Lacerda.

Para Arminio, os investimentos seriam o locomotor natural da retomada não fosse o período pré-eleitoral e as incertezas geradas por alguns nomes de pré-candidatos à Presidência do país:

– Vivemos um colapso do investimento. Há uma certa paralisia em função de estarmos próximos das eleições. Quem vai embarcar em um projeto de três anos de construção e 20 anos de retorno de capital? Vai esperar alguns meses. Não é só quem será eleito, mas como essa pessoa será eleita.

Lacerda lembrou que o nível de investimentos públicos federais também é o menor da História em valores nominais:

– Com muito custo, vamos chegar a R$ 30 bilhões este ano. Há três, quatro anos, esse investimento era de R$ 60 bilhões a R$ 70 bilhões. Estados e municípios também estão com uma capacidade de investimento muito limitada.

Nas contas de Lacerda, o PIB brasileiro não retorna ao nível pré-crise antes de 2022:

– Tivemos uma queda acumulada do PIB em dois anos de 7,2%. Este ano devemos crescer 0,5% e podemos crescer um pouco mais no ano que vem, mas ainda estaremos longe do nível pré-crise.

Arminio destacou a importância de se traçar políticas para atrair investimentos estrangeiros:

– O investimento no setor de petróleo é um exemplo muito importante. Esse investimento ficou travado, primeiro pelas regras, mas também porque não eram feitos leilões. Nós ficamos muitos anos sem leilões. Hoje, as regras são mais flexíveis, o que é bom para a Petrobras e para os investidores de fora. Por um bom tempo, o Brasil não atraía os principais atores nesse mercado, e agora isso já está acontecendo.

No último leilão da Petrobras, ocorrido na semana passada, a disputa pelos campos de pré-sal foi acirrada e contou com ofertas elevadas e a participação de gigantes mundiais do setor. Lacerda ponderou, no entanto, que sozinho o investimento estrangeiro não tem capacidade de alavancar uma retomada, por mais que os valores saltem aos olhos. O Brasil vai receber cerca de R$ 80 bilhões em investimento estrangeiro direto este ano. Entre 10% e 15% virão dos chineses, que também arremataram campos de pré-sal no último leilão.

– Chama atenção a velocidade deles (chineses) nos últimos anos. Isso corrobora a ideia de que o Brasil, nos últimos 15 anos, se tornou muito atrativo para o investimentos direto. O estrangeiro busca oportunidades, e a depreciação de ativos com a crise favorece isso. E ele não está olhando para 2018, ele vê daqui a dez, 20 anos.

Lacerda reforçou que falta ao país uma política estratégica para esse tipo de investimento.

– Somos muito mais procurado do que procuramos – comentou.

– Agência O Globo

Alan Gripp, editor executivo de Integração da Infoglobo, destacou que há um certo consenso sobre as mudanças necessárias, mas a dúvida política pode ameaçar todos esses caminhos:

– O ano de 2018 vai ser crucial para a gente entender qual vai ser o ritmo da recuperação econômica do país. Os dois economistas (Arminio e Lacerda) têm visões diferentes sobre alguns aspectos, mas têm pontos de consenso, o que indica que podemos produzir algum consenso no debate em nível governamental e de Congresso. É exemplo do que pode ser construído em um país politicamente pacificado.

Para Merval, o principal entrave de uma retomada mais consistente é a dificuldade de compatibilizar a necessidade de reformas com um ambiente político pouco favorável à racionalidade:

– O ambiente político brasileiro hoje tende mais à radicalização, e eu acho que a racionalidade não vai vencer na campanha eleitoral.

saída à francesa da crise

A colunista Míriam Leitão comentou que o país sai muito machucado dessa crise:

– Estamos saindo à francesa, sentindo todo o peso da recessão. Ela foi embora, mas ainda está entre nós. E, ao contrário dos anos 1990 e 1980, quando saímos para correr para o abraço, agora a saída é machucada com todas essas incertezas de 2018.

Para Diniz Ferreira Baptista, presidente do Banco Modal, a retomada da economia só se sustentará ao longo de 2018 se o favorito nas pesquisas eleitorais à Presidência for um candidato de centro-direita:

– Do contrário vai gerar incerteza até o final (das eleições).

Patrick Sabatier, diretor de Relações Institucionais e de Comunicação da L’Oréal Brasil, defendeu que o país precisa de reformas estruturais:

– O que hoje de uma certa forma o mundo espera do Brasil é que se tomem decisões estruturais para ter uma verdadeira retomada sustentável da economia brasileira. Temos uma visão em longo prazo aqui. O país é o quarto maior mercado de cosméticos do mundo, e seguimos apostando nele. Inauguramos um centro de pesquisa e estamos promovendo a inovação no Brasil.

Já Alexandre Sampaio, presidente do Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade da Confederação Nacional do Comércio (CNC) é pouco otimista:

– O comércio terá recuperação lenta, mas contínua. Não estamos otimistas com o turismo; os serviços dependem da recuperação do quadro como um todo.